"Nem eu nem ninguém pode viajar essa estrada por você. Você deve atravessá-la sozinho"

Walt Whitman

quinta-feira, 14 de julho de 2011

II - O sol também se levanta

Trechos do romance "O sol também se levanta" de Ernest Hemingway

[...] Ao meio-dia de domingo 6 de Julho, a fiesta explodiu. Não há outra maneira de descrever. Gente chegara continuamente de fora, mas a cidade assimilara-a e não se dava por ela.

Agora, no primeiro dia das festas de San Fermino, desde manhã cedo que tinham estado nas tabernas das ruelas da cidade. Ao passar pelas ruas, a caminho da missa na catedral, eu ouvia-lhes as cantorias que vinham das portas das lojas. Estavam a aquecer.

Havia muita gente na missa das onze horas.

San Fermín é também um festival religioso.

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Gente chegava de todos os lados à praça, e no fundo da rua ouvimos as gaitas-de-foles e os tambores que chegavam. Vinham a tocar o riau-ríau, as gaitas estridentes e os tambores reboando, e atrás vinham os homens e os rapazes a dançar. Quando os gaiteiros pararam, sentaram-se todos na rua, e quando as gaitas e os pífaros chiaram e os tambores cavos, tesos, duros, ecoaram de novo, pularam para o ar a dançar. Na multidão, só se distinguiam, subindo e descendo, as cabeças e as mãos dos bailadores.

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As festas haviam começado de fato. Duravam dia e noite, por sete dias. A dança durava, o beber durava, o barulho continuava. As coisas que aconteceram só podiam ter acontecido durante uma fiesta. Tudo se tornou inteiramente irreal, e parecia que nada podia ter consequências. Até parecia deslocado pensar em consequências, durante a fiesta.

Durante a fiesta tinha-se a sensação, mesmo quando havia sossego, de que era preciso berrar para ser ouvido. Acerca de qualquer ato, a sensação era a mesma. Era uma fiesta e durava sete dias.

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- Quero um cantil de couro - declarou Bill.

- Há uma loja mais adiante - respondi. - Vou comprar dois.

Os bailadores não queriam que eu saísse. Três deles, sentados no tonel ao lado de Brett, ensinavam-na a beber pelas borrachas.

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Não vi Brett nem BilI, e alguém me disse que estavam na sala do fundo. Ao balcão, a rapariga encheu-me os dois cantis. Um levava dois litros e o outro cinco litros. Encher os dois custava três pesetas e sessenta cêntimos. Alguém ao balcão, que eu antes não vira, tentou pagar o vinho, mas acabei eu por pagá-lo. O homem que tinha querido pagar ofereceu-me então um copo. Não aceitava que eu retribuísse, mas disse que beberia uma golada do novo cantil. Levantou o de cinco litros, e apertou-o, de modo que o vinho chiou-lhe no fundo da goela.

- Pronto - e restituiu-me a borracha.

Desenrosquei a tampa da borracha grande e ofereci-a em volta. Todos beberam, levantando-a a todo o cumprimento do braço.

Acima da cantoria, ouvia-se a música, lá fora, da procissão que passava.

- Isto não é a procissão? - perguntou Mike.

- Nada - respondeu um deles. - Não é nada. Beba. Vire a garrafa.

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